Pesquisadores identificaram que a maioria das erupções cutâneas, embora semelhantes às pústulas tradicionais, estão sólidas e sem pus

Uma das características mais marcantes da varíola dos macacos são as erupções cutâneas que podem surgir em diversos locais do corpo. Além odos sinais clássicos de uma infecção, como febre e dores no corpo, as pústulas são o principal sintomas do vírus monkeypox. Porém, pesquisadores espanhóis alertam que as lesões estão diferentes no surto atual da doença em comparação com os registros anteriores, com bolhas chamadas de pseudo-pústulas sendo predominantes agora.

Em novo estudo, publicado nesta semana na revista científica British Journal of Dermatology, dermatologistas analisaram 185 pacientes de maio a julho deste ano no país. Os pesquisadores observaram que na maioria dos casos as lesões foram principalmente nas genitais, relatadas por 53% dos contaminados, na face (39%), nos braços e mãos (38%) ou na região perianal (34%). No entanto, as erupções, embora semelhantes às pústulas tradicionais, eram sólidas e não continham pus.

“A varíola dos macacos é frequentemente descrita como causadora de pústulas, lesões cheias de pus, mas neste surto o principal sintoma da pele são pseudo-pústulas, bolhas brancas e sólidas que parecem pústulas, mas não contêm nenhum pus. Esta característica é muito rara em outras doenças, por isso é um sinal muito claro do vírus monkeypox”, alerta o principal autor do estudo e coordenador da Academia Espanhola de Dermatologia, Ignacio Doval, em comunicado.

O número baixo de lesões também é uma novidade do novo surto. Anteriormente, eram relatadas uma série de marcas por todo o corpo, mas no estudo foram observadas quantidades menores e mais localizadas. A maioria, 89% dos pacientes, teve menos de 25 lesões, e 65% dos casos foram em menos de quatro regiões do corpo. Cerca de 11% chegaram a apresentar apenas uma única erupção.

Além disso, assim como em outros estudos, os cientistas afirmam que as relações sexuais parecem estar tendo um papel importante na transmissão, que já se sabe acontecer pelo contato prolongado pele com pele. “Vários fatos apoiam o contato durante o sexo como mecanismo de transmissão. Diferentes lesões, provavelmente primárias, foram centradas na maioria dos pacientes em áreas de contato próximo durante a relação sexual”, escreveram os autores.

Eles também destacam a prevalência dos casos em homens que fazem sexo com outros homens (99% da amostra) e pessoas com HIV (42%). A maioria, 76%, recebeu um diagnóstico concomitante para outra Infecção Sexualmente transmissível (IST) junto à varíola símia.

No entanto, especialistas ouvidos recentemente pelo GLOBO alertam para o risco de se criar estigmas e preconceitos, e reforçam que todos podem ser contaminados.

— Já temos casos em casais heterossexuais, mulheres cisgênero e crianças. Mas, atualmente, a doença está predominando em homens que fazem sexo com homens e precisamos falar sobre isso abertamente, sem estigmatizar — disse o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Alexandre Naime Barbosa, em entrevista à reportagem.