A geleira Thwaites é conhecida como "Geleira do Juízo Final" Imagem: Divulgação/British Antarctic Survey (BAS)

Uma equipe internacional de cientistas iniciou uma missão inédita para perfurar a parte mais frágil, inacessível e menos compreendida da geleira Thwaites, na Antártida Ocidental.

A importância da Geleira Thwaites

Conhecida como “Geleira do Juízo Final” ou “Geleira do Apocalipse”, a Thwaites é uma das maiores e mais instáveis geleiras do planeta e será alvo de um trabalho científico de grande relevância. Ela tem aproximadamente o tamanho do estado do Paraná e concentra uma das maiores e mais dinâmicas massas de gelo do mundo.

Com gelo que chega a 2.000 metros de espessura em alguns pontos, o colapso da geleira poderia elevar o nível global do mar em cerca de 65 cm. Isso seria suficiente para causar impactos severos em cidades costeiras e áreas baixas ao redor do planeta.

O gelo dessa região atua como uma barreira para o restante do manto de gelo da Antártida Ocidental. Se essa barreira for perdida, o derretimento de outras áreas pode se acelerar de forma significativa, ampliando os riscos em longo prazo.

Como será a operação

A operação, conduzida por pesquisadores do Reino Unido e da Coreia do Sul, pretende utilizar uma perfuradora de água superaquecida para atravessar cerca de mil metros de gelo. Assim, chegar até a interface onde a geleira se desprende do leito rochoso e começa a flutuar no oceano, um ponto crítico para o derretimento.

Objetivo é instalar equipamentos e coletar dados diretos, em tempo real, sobre como a água do mar relativamente quente está derretendo o gelo por baixo, em uma área onde esse processo nunca havia sido observado diretamente. A região é repleta de fendas e apresenta movimentos rápidos do gelo, o que torna a pesquisa extremamente desafiadora.

Os instrumentos instalados nos furos permitirão monitorar temperatura, correntes e outros parâmetros, dados que até agora não existiam. Também serão coletadas amostras de sedimentos e de água para entender melhor o passado da geleira Thwaites e o que está acontecendo atualmente.

Operação de perfuração da geleira Thwaites vai durar cerca de duas semanas

Operação de perfuração da geleira Thwaites vai durar cerca de duas semanas – Imagem: Divulgação/British Antarctic Survey (BAS)

A pesquisa busca compreender como águas oceânicas relativamente quentes fluem sob a geleira e aceleram seu derretimento. Segundo o oceanógrafo físico Peter Davis, trata-se de uma grande missão.

“Pela primeira vez, receberemos dados diariamente debaixo da plataforma de gelo, perto da linha de aterramento. Estaremos observando, em tempo quase real, o que a água quente do oceano está fazendo com o gelo a mil metros abaixo da superfície. Isso só se tornou possível recentemente, e é fundamental para entendermos a rapidez com que o nível do mar pode subir.” – Peter Davis, oceanógrafo

Segundo relatório da British Antarctic Survey, os cientistas pretendem realizar a perfuração em cerca de duas semanas. Após a instalação dos instrumentos, os dados serão enviados diariamente por pelo menos um ano, via satélites Iridium.

Uma expedição preliminar realizada por uma equipe da Coreia do Sul já atua na área. Em paralelo, um veículo controlado remotamente identificou um local seguro para a perfuração. Mais de 40 voos de helicóptero foram necessários para transportar cerca de 25 toneladas de equipamentos, que serão usados pela equipe durante as próximas semanas.

Área de grande interesse

A coleta de dados sobre o fundo do oceano e sobre a geleira será essencial para entender como estruturas como a Thwaites contribuem para a elevação do nível do mar. Há mais de uma década, a região é alvo de estudos para avaliar até que ponto e com que rapidez essa geleira instável pode derreter com o aquecimento do clima.

Por ser uma área cheia de fendas e com muitas regiões ainda inexploradas, os cientistas precisam de um plano rigoroso para obter dados confiáveis e aprimorar as previsões sobre a velocidade de elevação do nível do mar. Dessa forma, governos e comunidades podem se planejar e se adaptar previamente.

De acordo com o oceanógrafo Keith Makinson, a equipe reúne cerca de 75 anos de experiência nesse tipo de operação, e a missão tem boas chances de sucesso. “Esta tecnologia está ajudando a responder perguntas cruciais sobre como todos nós seremos afetados pelas mudanças climáticas e pela elevação do nível do mar.”