Foto: AGCO/Divulgação

O avanço das chamadas canetas emagrecedoras nos Estados Unidos começa a abalar um dos pilares da economia agroindustrial brasileira. Tradings norte-americanas de açúcar, como a Czarnikow, apontam os medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, como responsáveis pela queda dos contratos futuros de açúcar para menos da metade do valor anterior no mercado americano, um dos principais destinos das exportações brasileiras da commodity.

Foto: Freepik

Desenvolvidos inicialmente para controle do diabetes tipo 2, esses medicamentos injetáveis também passaram a ser amplamente usados para emagrecimento. O efeito colateral para o agronegócio: os consumidores americanos estão comprando menos alimentos com açúcar de cana. O impacto já aparece nos dados oficiais.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) cortou em 65% sua estimativa de consumo de açúcar no país em 2026, o equivalente a 35 mil STRV (Short Tons, Raw Value), conforme o Relatório de Perspectivas de Oferta e Demanda de dezembro de 2025. Uma série mensal mostra queda gradual ao longo de 2025, com acumulado próximo a 2%. Um número expressivo para um mercado historicamente estável.

O Brasil responde por cerca de 23% da produção mundial de açúcar e tem nos Estados Unidos um comprador estratégico. A notícia chega em um momento já delicado. O setor sucroalcooleiro enfrenta custos operacionais elevados e impactos climáticos crescentes.

A saída pelo etanol

Uma característica estrutural do setor brasileiro pode amortecer o golpe. As usinas de cana têm flexibilidade para migrar rapidamente entre a produção de açúcar e a de etanol, conforme as condições de mercado.

Frederico Favacho, sócio de agronegócios do escritório Santos Neto Advogados, reconhece a alternativa, mas sinaliza seus limites. “À medida que o preço do açúcar cair, as usinas vão usar suas estruturas para produzir etanol, e o aumento do volume vai derrubar o preço do combustível. Ainda assim, esse cenário vai depender do preço praticado, que hoje está estável e bem competitivo”, avalia.

Impacto jurídico nos contratos

Além do impacto econômico, Ieda Queiroz chama atenção para as consequências jurídicas que a volatilidade de preços pode desencadear. “Em contratos de fornecimento de longo prazo, exportação, hedge e financiamento atrelados a performance operacional, eventual instabilidade pode gerar discussões sobre reequilíbrio econômico-financeiro, cláusulas de hardship, força maior ou revisão por onerosidade excessiva, a depender da redação pactuada e da lei aplicável”, afirma.

As negociações futuras também tendem a mudar de perfil. Segundo a advogada, os contratos devem passar a incluir mais mecanismos de proteção: cláusulas de ajuste de preço, earn-outs vinculados a indicadores de mercado, flexibilização de volumes mínimos e covenants financeiros calibrados para cenários conservadores. “Em outras palavras, além de um tema econômico, trata-se também de uma variável jurídica que o setor precisa incorporar à sua matriz de riscos contratuais”, conclui Ieda Queiroz.